terça-feira, 21 de junho de 2011

A pena do desejo que restou

Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo.
Marquês de Sade

A ponta da pena, banhada pela tinta negra da perversão fez aquele poeta morrer engasgado com a sua própria cruz.
O peito manchado de sangue, os olhos sedentos de carna crua, de vida, de luxúria.
Incumbiram-lhe a missão de documentar o mundo através de suas letras, deram-lhe as ferramentas, a caneta, a tinta, a pena... depois as tomaram num gesto brusco, usurparam-lhe os meios. 
Deixaram vazio seu quarto.
Nenhum pergaminho, nenhum outro modo de gritar desumanamente contra a fumaça dos canhões e ao cheiro fúnebre da lâmina decapitadora.
Pôs-se a escrever com a alma, com a volúpia e o ódio que queimavam em seu corpo. Cuspiu toda a imoralidade há muito estava retida.
Quiseram-lhe cortar a língua. Tentaram arrancar-lhe os olhos na vã e cruel tentativa de fazer com que ele parasse de escandalizar a si próprio.
Era ele pura sedução.
Continuou a esbravejar pelas ruas, contra governos, impérios e igrejas. Seu brado de verdade continuava a reproduzir a miséria humana.
Ser humano desgraçado - como qualquer outro - foi tomando, aos poucos, a forma de um deus, trazendo seus músculos em plena demonstração. Correu pelas trincheiras como que fugisse do combate por ele travado ao momento que entendeu-se como escritor.
Da mente brilhante que tinha, surgiram os contos mais imoralistas, mais cruéis, porém, eram eles o retrato da desgraça que é insuflada os vivos.
Caligrafou a própria pele.
Sangrou a ponta dos dedos e escreveu nos lençóis com aquele seu líquido vermelho; o seu sangue miserável.
Medíocres, todos os que o condenaram. Perfeitos imbecis, encarcerados que veem beleza em serem manipulados a todo instante.
O mundo, estúpido, não esteve pronto para seus escritos. Não esteve e nunca estará. O mundo, a sociedade não aceita ver a própria miséria.
Malditos os que vão contra a verdade e encontram na mentira o combustível que os movimenta como parasitas por sobre a terra.
O humano, em si, já é um pervertido. Todos os conjuntos de valores, ridículos como são, servem como tinta nas bochechas do palhaço: disfarça; mas não engana.
E os que não usam tal maquiagem são execrados, guilhotinados, enlouquecidos por outrem. Foi o fim do saudosíssimo poeta.
Não há nas ciências solução, estudo ou qualquer outra inclinação que explique e defina o quão o ser humano é desgraçado pela sua pequenez de alma.
A inveja torturante, o insulto diabólico dirigido ao poeta fez  com que aquele cérebro encontrasse a loucura. Confesso-lhe, leitor, que nunca vi tanta lucidez na loucura daquele homem.
Quiseram-lhe comer a carne com aquele dentes podres e fétidos. Quiseram acorrentá-lo, privaram-no da luz solar e forneceram-no o frio das paredes concretadas de gris.
Seu nome foi enterrado junto com seu corpo, sua poesia foi posta no caixão do esquecimento.
A alma que não entrega-se a desgraça da maioria padece em vida, e encontra na morte sua mais gloriosa vitória.
O poeta foi natural. Isso o condenou.
O universo serviu-lhe sua taça esborrando ódio apenas.
Morrer poeticamente é a maior aspiração dos mártires das letras. Esperava ele a aceitação. Quis compartilhar com os outros o mesmo gozo que sentia ao escrever. 
Publicar não é sinal de pedantismo. É reflexo do orgasmo filosófico , da humildade em dividir a ciência atribuída ao escritor.
Publicar é escrever com a pena do desejo a própria sentença. Os leitores é que decidirão sua sorte.

*Aos algozes que querem lançar ao fogo as minhas quimeras.


Vou-me pela porta estreita; pois a larga causa-me repugnância.

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