quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Paraíba feminina, Mulher fêmea sim senhor!

Quando a lama virou pedra e mandacaru secou; quando o Ribação de sede bateu asa e vou, foi aí que eu vim embora carregando a minha dor e hoje eu mando um abraço pra ti pequenina... Paraíba masculina muié macho sim sinhô! Eita! Pau Pereira que em Princesa já roncou; Eita! Paraíba muié macho sim sinhô! Eita! Pau Pereira, meu bodoque não quebrou, e hoje eu mando um abraço pra ti pequenina...


Agradecemos pelo abraço de Seu Luiz. Acredito (ou quero acreditar) que a letra da música não se refere às mulheres da Paraíba. Eu entendo que, Luiz Gonzaga referiu-se ao Estado.
Paraíba é um substantivo feminino, portanto Gonzagão utilizou o termo mulher. Não sei em que ano a música foi composta, mas prestando atenção na letra podemos concluir que ele faz uma alusão aos acontecimentos políticos da Paraíba pré revolução de 30.
"Pau Pereira que em Princesa já roncou": O Coronel José Pereira, perrepista declarou a independência de Princesa Isabel e declarou guerra contra o estado da Paraíba governado por João Pessoa. Logo, concluo que Luiz Gonzaga utiliza a expressão "Mulher Macho" como referência a Paraíba (mulher) que tem coragem e  que se impõe (atitude culturalmente atribuída ao homem).
É claro que nas entrelinhas estão presentes valores machistas e, a tal da "Mulher Macho" não deveria ter saído da música, onde ela tem um contexto e faz parte de nossa cultura. O problema está nas formas em que a música é interpretada, nas dimensões que ela toma e da forma como ela é exportada.
A música virou título de um filme que faz uma leitura errônea da paraibana Anayde Beiriz. O filme, dirigido por Tizuka Yamazaki (de Porto Alegre - RS) e escrito por ela e José Joffli sob o título de Parahyba Mulher Macho, lançado em 1983, tem Anayde Beiriz representada pela Talentosíssima Tânia Alves.
Parahyba Mulher Macho segue a ideia que o senso comum gerou em 1930. É um ótimo filme, isso não se pode negar, mas a mensagem passada por ele não é aceitável. Nele, Anayde é apresentada de uma forma extremamente erótica, é exposta como uma prostituta. Perpetuou-se assim a alcunha que deram a ela: "a rapariga de João Dantas".
Se deixarmos de lado João Dantas, João Pessoa e os acontecimentos pré-revolucionários de 30 e forcarmos apenas na pessoa de Anayde Beiriz veremos que, grande parte do que foi dito sobre ela no filme está fora de contexto. Antes de João Dantasm Anayde já era mulher, já era protagonista da própria vida, já sofria com os julgamentos da sociedade. Ele não foi o único homem a quem ela amou.
Tizuka Yamazaki foi processada pela família Beiriz que exigiu retratação pública por parte da autora devido ao conteúdo erotizado do filme.
Poetisa, professora. atuava em círculos de cultura na cidade, pulicava em jornais desde as suas poesias até suas revolucionárias ideias políticas que envolviam questões como o direito das mulheres ao voto e o voto secreto.
Anayde mostra-se sensível, apaixonada em uma das cartas que ela envia a Heriberto Paiva, o Henry:
“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimentos ou pelo poder selético e dignificador da cultura.
Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.
É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...
...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.
Adeus. Beija-te longamente, Anayde”



***
Marcus Aranha, o autor do livro Panthera dos Olhos Dormentes (João Pessoa; Manufatura, 2005) afirma que Heriberto foi o Grande amor da vida de Anayde Beiriz. Anayde o conheceu em 1924. O namoro dos dois foi rejeitado pela família de Heriberto. A relação dos dois findou em 30 de agosto de 1926.
Somente em 1928 Anayde começa o romance com João Dantas, do qual já sabemos o desenrolar da história. Anayde morreu aos 25 anos de idade, por um suposto envenenamento no Asilo Bom Pastor em Recife; onde estava internada sob o cuidado de freiras. Foi enterrada como indigente no cemitério de Santo André. 
Ainda é tida como prostituta, libertina e é lembrada pelos leigos como a "rapariga de João Dantas". O filme Parahyba Mulher Macho, contribuiu para que esta memória no mínimo equivocada (para não usar outro termo) continue sendo propagada não só pela Paraíba, mas pelo mundo inteiro, já que foi um filme que recebeu prêmios internacionais.
Marcus Aranha afirma que o título de Mulher Macho não "combina" com Anayde e eu concordo plenamente com isso. Mulher macho é um termo grosseiro, no meu entender chega a ser até preconceituoso. Anayde foi uma mulher romântica, sensível, sonhadora, apaixonada, inteligentíssima... é fonte de inspiração para muitos artistas contemporâneos.
Mesmo tendo sido demonizada, existem ainda pessoas que lutam pela preservação da sua memória, que mostram Anayde como mulher e não como prostituta.
Que Anayde Beiriz não seja esquecida nem interpretada de forma errônea pelos paraibanos; principalmente pelas mulheres.
Anayde não foi só uma filha de tipógrafo. Ela viveu anos luz á frente daquela Paraíba aristocrática dos anos 20.


anayde-beiriz
“Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou
Noite nupcial
As telhas viram tudo
Se as moças fossem telhas não se casariam”
Anayde Beiriz






Amanda  de Souza
26/10/2011.

6 comentários:

  1. Concordo com sua postagem.
    Anayde é um dos exemplos de mulheres paraibanas a frente de seu tempo e como tal, incompreendida até hoje!
    Basta ser mulher e pensante que a sociedade se encarrega de fazer o possível e o impossível para silenciar ou denegrir essa mulher assustadoramente "subversiva".

    ResponderExcluir
  2. Obrigada Kauana...
    De vez em quando escuto alguns comentários nada agradáveis a respeito de Anayde e, como paraibana de nascimento e admiradora dela me revolto com os equívocos que foram gerados pelo filme.
    Parahyba Mulher Macho é uma ótima iniciação à história da Revolução mas, no que diz a Anayde é terrível a capa erotizada na qual Tizuka a colocou...

    ResponderExcluir
  3. Pois é.
    E olha q eu nem tinha ouvido falar muito sobre ela e como meu ingresso à inclusão digital se deu tardiamente, demorou para eu conhecer Anayde.
    São com mulheres assim q eu me inspiro.
    E muitas vezes sou incompreendida igual a ela.
    Enfim, ser mulher em terras misóginas ainda é um desafio kkkk.

    Bjs

    ResponderExcluir
  4. Só os ignorantes dessa nossa sociedade é que jamais verão a verdade sobre Anayde Beiriz. Serão sempre como mulas teimosas que param no tempo e por mais que se diga não saem do lugar.
    Além disso nunca saberão quem foi de verdade a Parahyba Mulher Macho.

    ResponderExcluir
  5. KAUANA... por incrivel que pareça meu ingresso no mundo digital tbm foi um pouco tardio, começou de forma tímida... Conheci Anayde aos 15 anos mais ou menos numa jornada pedagógica do SINTEENP (sindicato dos professores de escolas particulares) Lembro que foi um professor de História chamado Hilton, amigo da minha mãe que apresentou o filme Parahyba Mulher Macho, sendo esse o primeiro contato com ela. Depois fui me interessando pela história dela e fui pesquisando, perguntando a um e a outro... mesmo na Internet vc acha poucas coisas sobre ela, e quando acha são coisas muito superficiais (assim como esse meu post). Existem dois livros-eu acho- e assim os paraibanos vão esquecendo e enterrando a memória de Anayde.
    GUSTAVO... Concordo em partes com você... a culpa - se é que se pode atribuir culpa a alguém - de Anayde cair no esquecimento muitas vezes é dos professores que esquecem de mencioná-la nas salas de aula, tanto para os pedagogos, quanto para os prof. de história. Se não fosse minha curiosidade eu ainda seria uma mula teimosa... rsrs. Mesmo que uma ou outra pessoa se esforce para mostrar quem foi Anayde de verdade - se é que existe verdade - o povo paraibano continuará a esquecê-la. Se vc procurar na net artigos acadêmicos sobre ela vc encontra uma infinidade deles em outros estados, principalmente no Sul do país, são poucos os paraibanos que falam sobre ela.
    Como paraibana de nascimento (todos sabem do meu amor por Pernambuco), eu me sinto na responsabilidade de falar, de lembrar e de desmistificar a figura de Anayde. E queria que tantos outros conterrâneos fizessem o mesmo.
    Obrigada pelos comentários!

    ResponderExcluir