segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Um desabafo

Lia era uma menina dedicada, silenciosa, que gostava de ouvir Mozart tomando cerveja com uns amigos que moram em Mangabeira. Estudava loucamente para conseguir entrar na universidade.
Em janeiro, recebeu um e-mai do SiSu dando os parabéns pela aprovação no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Paraíba.
Tudo ia bem até o dia em que, inocentemente ela decide voltar à Igreja.
Começa a Frequentar um grupo de jovens e conhece o Mário.
Não sei por que razão, causa, motivo ou circunstância os dois começam um relacionamento.
Lia, virgem, em plenos 19 anos nunca tivera levado um namorado para casa ( o que não a impedia de namorar por aí...\o/). Mário foi o primeiro. O primeiro namorado "sério", o primeiro cara que ela gostou de verdade na vida.
As coisas foram acontecendo até o maldito dia em que Lia transou sem nenhum tipo de prevenção. Nada de camisinha, nem de anticoncepcional nem de pílula do dia seguinte.
Preciso dizer o que aconteceu?
Mário terminou o namoro, fez de Lia o próprio diabo, sabendo que havia o risco dela estar grávida.
A gravidez  já não era mais um risco. Era um realidade de duas semanas confirmada pelo teste da farmácia.
Aí vieram todos os conflitos familiares, as "amizades" perdidas e tudo mais.
Para a alegria dos deuses do Olimpo, o corpo de Lia rejeitou aquela coisa estranha, e  ela abortou espontaneamente aquele filho, que se viesse a nascer, viveria fadado à indiferença da mãe. Ouso dizer que chegaria o dia em que Lia iria o odiar por ver nele a face de Mário.
Mário não estava nem aí pra tudo isso, na verdade, ele nem sabe o que aconteceu com Lia desde o dia em que ele a deixou.
Muitas outras coisas aconteceram. Foram coisas miúdas, e Lia, como uma feminista portou-se como tinha que ser.
Hoje Lia tem 20 anos. As marcas ainda estão presentes. Recentemente, espionando pela última vez a vida de Mário, revoltou-se ainda mais com a frase do Status do Orkut dele.
-Fique aí com seu deus. Reze para que ele tenha misericórdia dessa coisa que você chama de alma. - disse Lia, depois de deletar o perfil dela que tinha todos os amigos em comum dos dois.
Todos os dias ela lembra do sangue no chão do banheiro. Das lágrimas que derramou, das noites que passou SOZINHA dentro do quarto implorando para que lhe fosse tirada a vida.
Ela odiou a si.
Agora ela vive relativamente bem com essas lembranças que enterrou e escreveu num grande epitáfio negro:
IN MEMORIAM DAQUELE QUE VIVEU E MORREU NO MEU PRESENTE. JAMAIS SENTIREI SAUDADES E NUNCA ESQUECEREI O MAL QUE ME FEZ. DESCANSE EM PAZ.
***
CARTA DE  LIA:

Olhar face a face para a desgraça não é para qualquer uma. Não me renderei a jogos infantis e seguirei feliz pela estrada afora caminhado para onde ela me levar.
Não é um homem que vai me fazer sentir completa. O meu doutorado vai.
Não é essa lembrança que vai me derrubar... Não é porque perdi a virgindade que o mundo vai ter que acabar. Os céus não vão desabar por isso.
Não! Eu não cometi um aborto. É verdade que considerei esta ideia por umas 24 horas, mas logo desisti. As pessoas não sabem dessa historinha e não estão nem aí para ouvir o que eu senti.
Mário é o coitadinho. Eu que sou o diabo, a puta, a traidora, a vagabunda. Não ligo! Fui eu que sangrei como uma vaca no abate por um tempo que pareceu a eternidade. Fui eu que vi um pedaço de carne sendo expulso de mim. Poderia ser só uma bolinha de sangue, mas aquilo seria meu filho. Seria o filho de uma mulher. Nasceria sem pai, pois eu não admitiria que ele conhecesse o covarde que o abortou antes de mim.
Não... Ele não me fez mulher. Já nasci mulher. Não é o rompimento de um lacre que  me tornaria "a mulher dele". Eu sou mulher do mundo. Não fui dele.
Me recuso a ser qualquer coisa daquele crápula que negou a mim e ao filho dele.
Santo? Iscariotes? Ou Pedro que negou o Cristo três vezes enquanto ele estava às vésperas da morte? Se é assim, eu quero ser a puta. Prefiro o inferno deles do que colocar essa máscara de perfeição ridícula.Assumo meus rótulos. Que se foda o que pensam de mim!
Deixo claro que não estou nem aqui para a tentativa de Mário de me causar ciúmes com a nova namorada. Sejam felizes. ( Querida, tenha  cuidado, ele é um excelente ator. A Globo tá até querendo contratá-lo para a próxima série: Os grandessíssimos Filhos da Puta).
Faço minhas as palavras de Anayde Beiriz:


Não Eu não hei de chorar [...]
Tu me conheces bem pouco.  [...]

Pouco se me dá saber da tua nova paixão [...]

A razão por que gostei de ti?
Porque pensei que tu eras louco [...]
Tive sempre a extravagância de achar deliciosos os loucos que julgam ter juízo [...]Desiludiste-me afinal![...] E é tão desinteressante um homem ajuizado que finge de louco [...]Dizes que me procurarás esquecer. Ingênuo!Desafio-te a que o consigas [...]As marcas das minhas carícias não foram feitas para desaparecer facilmente [...]Mil outros lábios que se incrustarem na tua boca não arrancarão de lá a lembrança da minha [...]Mas, se ainda assim, o conseguires, a tua vitória não será duradoura.Não há vantagem em esquecermos hoje o que temos de lembrar amanhã [...]


No entanto, eu já não te amo [...]
Admiro os homens fortes e tu és um covarde: Tens medo do meu amor. Receias o delírio febril do meu desejo, a exaltação diabólica do meu sensualismo, a impetuosidade selvagem da minha volúpia [...]
Sonhar um afeto simples, monótono, banal [...] Um afeto que toda mulher pode dar [...]

Fazes bem em procurá-lo distante de mim
O meu amor é bem diferente: é impulsivo, torturante, estranho, infernal [...]
Ouve, contudo, o que te digo: hás de experimentá-lo ainda uma vez [...]Então veremos quem de nós dois chorará [...]

(Das cartas que te escrevi e não te envivei, Anayde Beiriz - Grifo meu).

***

Dou uma balinha de café a quem adivinhar quem é a "Lia" dessa história... E tem mais: Eu (Amanda de Souza) não quis ofender ninguém com as palavras acima.

Que eu nunca esqueça de tudo isso...
Nunca...



Nenhum comentário:

Postar um comentário