sábado, 26 de novembro de 2011

Fragmento nº 08

O lugar era escuro. Preferia o breu da noite para melhor se camuflar entre as pessoas. Se bem que não eram tão pessoas aqueles vultos vorazes que caminhavam nas sombras à espreita de uma alma desiludida.
O cenário daquele bar fugia do cotidiano daquela mulher: Paredes mofadas, mesas sujas, baratas no chão. Nada ali parecia com ela nem com a roupa que ela vestia.
De longe sentia-se o perfume afrancesado. Pelo vestido bem cortado, pelo cabelo alinhado e pelos sapatos que ela trazia nas mãos via-se que ela não morava naquele buraco da cidade.
Os homens a olhavam com curiosidade e medo: o que uma mulher rica fazia naquele lugar?
Ela andou em direção ao balcão. Pediu um copo de chope. Tomou tudo como se não pudesse perder um minuto da sua vida.
Tirou da bolsa uma cédula qualquer e saiu.
Foi em direção ao mar. Guiava-se pelo cheiro de maresia.
Nenhum corpo habitava as areias. 
Ela sentou-se. Sentiu-se senhora daquele mundo que ela jamais conhecera.
Tirou os brincos, a pulseira, o relógio, a aliança de noivado. Rasgou um pedaço do vestido, embrulhou as joias e ofertou-as a Iemanjá.
Caminhou pela beira do mar. Deitou-se na areia, de corpo e mente cansados.
Olhando a pequenez e a beleza das tímidas estrelas que se viam nas águas compreendeu que ela não era o achava que era. Ela não era o perfume, a herança. Não era o vestido muito menos os sapatos.
Ela tinha dinheiro, empresas, imóveis, carros. Mas que isso importa quando só se quer ser alguém? De que vale riqueza quando apenas se deseja ser o que sonhou quando menina?
Ela não tinha nome, ela não era ninguém.
Triste conclusão.
Perdeu todo tempo de sua vida pensando que a felicidade estava nas cortinas de cetim do quarto, nos travesseiros importados, nas viagens ao exterior. 
Sempre estivera sozinha. Todos que se aproximavam apenas queriam roubar-lhe algo.
Ela aceitou a realidade que gritava na sua frente.
Levantou. Tirou a areia do vestido, secou os olhos molhados de lágrimas.
Percebeu que o castelo derrubado pela verdade não era o fim da história. Agora ela não precisava mais fingir, ela apenas queria atingir a felicidade sonhada.
Segunda feira. Chegou para trabalhar. Entrou na sua sala, olhou para tudo e percebeu como aquilo tudo era medíocre. Seguiu pelo corredor, entrou na sala da presidência e disse ao pai que se demitia.
Pegou a bolsa, entrou no carro.
Dirigiu.
E não se sabe onde ela foi parar.

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