quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

BBB12: O negro da Casa grande

Malcolm X
"Um branco perguntar a um negro porque o odeia, é como um estuprador perguntar à violada: Você me odeia? O branco não está em posição moral para acusar o negro. (...) Para isso, é preciso entender que, historicamente, havia duas espécies de escravos: o negro de casa e o negro do campo. O negro da casa vivia junto do senhor, na cave ou no sótão da casa grande. Comia, vestia-se bem e amava o seu senhor. Amava mais o senhor que o senhor amava ele. Se o senhor dizia: "Temos uma bela casa!" Ele 
respondia:"Temos sim! " Se a casa pegasse fogo, o negro da casa corria para apagar o fogo. Se o senhor adoecesse ele dizia: "Estamos doentes!" Estamos doentes é o que o negro da casa pensa. Se um escravo do campo lhe dissesse: "Vamos fugir desse senhor" ele respondia: "Existe coisa melhor do que temos aqui? Não saio daqui" O chamávamos de negro da casa e é o que lhe chamamos agora, porque há muitos negros da casa.
Filme: Malcolm X  . EUA, 1992


Ontem estreou a décima segunda edição do programa ícone da alienação brasileira: O Big Brother Brasil. Falo especialmente do Brasil porque ainda é o único país em que esta versão do programa tem destaque.
Assisti a tal estréia, só para ter ideia dos tipos que serão manipulados por lá. Logo identifiquei um bissexual de meia idade cheio de tatuagens: um caroço no angu da sociedade brasileira. Depois vi a professora de artes Mayara, produtora de filmes pornô, também bissexual.
Até aí João Carvalho e Mayara eram os dois tipos diferentes colocados no programa para preencher a "cota". Eram então 12 participantes, mas faltavam ainda 4 pra fechar a conta de 16. Pedro Bial então revela os nomes das quatro pessoas restantes: Uma loira magra, uma morena gorda, um rapaz com cara de caipira e chapéu de cowboy e um negro do cabelo power.
Completaram-se as cotas.
Continuei assistindo aquela bagaça (vale salientar que detesto o programa). Uma ânsia terrível me veio quando assisti a isso:


Um negro da casa grande. Um negro que não acredita em preconceito. Um negro que não sabe o que é ser negro. Um cotista num programa de brancos. Um negro que envergonha a todos nós, negros e afrodescendentes. É claro que DEVERIA ser assim. MAS NÃO FUNCIONA ASSIM!
Será que ele não percebeu que é o único negro da casa, que já entrou na repescagem?
O caráter preconceituoso do programa, do apresentador, do produtor e da emissora é indiscutível, qualquer pessoa com o mínimo de bom senso pode observar isso nas novelas, nos programas, no elenco, nos apresentadores...
Um cara afirmar isso na TV na mesma semana em que um PM agride um estudante da USP por ser negro, na mesma semana em que a cracolândia é sufocada com ênfase na violência contra os negros é, no mínimo irônico. Se fosse só o sangue vermelho que importasse não aconteceria isso:





Cada vez mais acredito que os participantes seguem um script, e que o Big Brother é um programa medíocre que não tem finalidade nenhuma. 
Vestido na capa de um programa ecologicamente correto, disseminador dos bons costumes e etc e bonzinho, os brasileiros, em sua maioria esquecem de pensar, de ler, de ter senso crítico, de opinar...
Temos então três meses de pura alienação rolando no ar. Que comecem os jogos medíocres! 
Eu só posso dizer que eu tenho um sonho...

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história


Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade
(Jorge Aragão - Identidade)





Um comentário:

  1. Ainda bem que Martin Luther King não está vivo para ver isso.
    E no mais, sem palavras, alienação é o cardápio do Brasil.
    Ler faz mal para o governo.
    Pensar dói.

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